“Bom dia. Embarque ou conexão?”
Parecia uma pessoa do staff do aeroporto, mas não. Era um
vendedor de uma editora, tentando me “fisgar”.
Sentei-me num lugar estratégico e fiquei acompanhando a
operação. Observando a franca irritação de
alguns passantes, me pergunto. Por quê?
Por que alguém se submete a um subterfúgio destes para
tentar capturar um novo consumidor?
Parece fácil condenar o vendedor e sua armadilha tosca.
Decido olhar mais fundo... Será que este vendedor gosta ou
tem orgulho do que faz? Ou está pagando contas, buscando alguma estabilidade,
atendendo a sonhos alheios do que é ser uma pessoa de sucesso?
A farsa da editora é muito evidente. Não vi quase ninguém ir “só
retirar o brinde” que levaria a um discurso de convencimento “compre uma
assinatura”.
Na vida real, o dilema é mais sutil. Será que estamos vendendo a nós mesmos e aos
outros algo que não nos serve?
“Eu preciso deste trabalho porque
preciso pagar contas”
“Eu não sei fazer outra coisa”
“Sou muito velho para começar de
novo”
“Já investi muito neste caminho
onde estou”
“Não tenho coragem”.
Todos os dias conheço pessoas buscando enfrentar estas
questões. São perguntas difíceis, causadoras de grande sofrimento. Por que tantos outros não conseguem encará-las?
Tudo é uma questão de preço. Muitas pessoas não percebem
claramente o custo de um trabalho sem sentido, até a vida passar ou alguma
crise acontecer.
Voltando para nosso exemplo. Um daqueles vendedores pode um
dia se sentir maltratado. Outro pode achar que o dinheiro que ganha, não vale o
esforço. Alguns, podem adoecer física ou emocionalmente, pelo desgaste de
tanta rejeição. Uns podem ter sonhos
pulsando cada vez mais alto, até não sobrar energia para abordar clientes a
caminho de seu voo.
E para alguns, somente alguns, chegará o dia em que dirão “chega,
vou buscar outro trabalho ou vou ao menos tentar vender minha assinatura de uma
forma diferente!”.
Para todos nós, o preço pode ser a saúde física, o equilíbrio
emocional, a falta de sentido. O preço
pode ser desperdiçar talentos, ignorar sonhos, engolir sapos além da
conta.
Sim, é preciso pagar as contas. Mas a que preço?
O singelo exemplo do aeroporto evoca questões éticas, mas
também não vi um ambiente estimulante no quiosque onde os vendedores se
aglomeravam. Fiquei curiosa até quando vão tentar esta nova tática.
Também fico curiosa por entender o limite das pessoas, cada
um tem o seu.
Quanto tempo é preciso para se repensar que tipo de trabalho
queremos fazer? Quanta dor e incômodo estamos dispostos a vivenciar?
O Odisseia foi criado para estimular relações mais felizes
com o trabalho. A reflexão é o primeiro passo neste sentido e esta é a intenção
deste texto.
Qual o preço da minha
escolha profissional hoje?
Como eu posso interferir para que o que faço para
pagar as contas também sirva para minha realização pessoal?
O que está ao meu
alcance para ter um trabalho que faça sentido?
Minha hipótese é que a resposta não está num script
automático que vendemos para nós, justificando a situação atual... Descobrir
suas respostas pode ser o primeiro passo para uma grande transformação.
